A Escola durante e pós-pandemia

 
Por Guiomar Terra Batú dos Santos

 

Dois mil e vinte. O verão,quase brasa, sai de cena e dá lugar ao outono assombroso, tenso, em que quase passou despercebida,a dança das folhas multicores ao vento, deixando as árvores desnudas. Desnudas as árvores, e as gentes. Desnudos todos nós de nossas certezas tão incertas, assistimos, estupefatos, à humanidade sendo devorada por um vírus minúsculo a desafiar todos os avanços da ciência.

O medo ronda as casas, arrebata vidas. A pandemia se agiganta mundo afora, sem limites, sem fronteiras.

No Brasil doente, desordenado, pandemônio, aprofundam-se enfermidades múltiplas: o coronavírus rasga a terra em sepulcros; a derrocada da democracia vai se naturalizando; a economia chafurdando, empobrecimento e miserabilidade com mais de 40 milhões de pessoas ganhando a vida na informalidade, mais de 12 milhões de desocupados.

O inverno gélido no torrão gaúcho é demarcador da realidade social – conforto, prazer, bons vinhos para alguns, agonia, flagelo para muitos.

O bom senso faz-nos reclusos, um tanto sepultados, sem poder transitar, sem abraçar, sem beijar, sem um aperto de mão sequer.

As escolas? Ah, as escolas!? Prédios frios, sem alma, sem a tagarelice das crianças e jovens, sem seu riso de alegria, sem olhares de esperança. Tudo é distância, tudo a distância, contudo, as relações se mantêm vivas, mantidas pelos laços de saudade de alunos e esforço sobre humano dos professores.

Conforme Lacan “É preciso o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir”. Passados cem dias da quarentena e sem previsão de normalidade e de retorno seguro, há uma única certeza: é latente o desejo em ter professores e alunos na escola, mas, sem segurança, não há a menor possibilidade, pois se há que se cuidar do conhecimento, se há que se cuidar do afeto, há que se cuidar da vida.

Fixamos, então, nosso olhar na escola pública, toda a excepcionalidade que o momento exige e as fendas abertas pelo ensino remoto. Uma série de perguntas carecem de respostas:

  • Quanto tempo nossos educadores suportarão a sobrecarga de atividades nesse período: envio de conteúdos, atividades, vídeo-aulas, materiais físicos, e-mail, WhatsApp, Facebook, Google Classroom, plataformas digitais, atendimento a centenas de alunos, pais, mães, demandas da mantenedora, preenchimento de planilhas, relatórios, etc.?
  • Pesquisa realizada em 2018, no Brasil, quanto ao uso da internet mostrou que crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, 66% não se conectam a internet. Na zona rural chega a 82%. Que percentual de alunos tem conseguido realizar as atividades propostas?
  • As crianças conseguem ser protagonistas de seu processo de aprendizagem, entendem suficientemente conteúdos ou atividades ou precisam de auxílio? Quantos pais e mães têm condições de prestar esse auxílio?
  • É possível aulas remotas a alunos que vivem em situação de vulnerabilidade, moram em locais desprovidos de saneamento básico, onde falta água, comida, uma mesa de trabalho, um telefone sequer?
  • Aprendizagem é construção de conhecimento que acontece num processo dialógico. Uma aula não se limita a questão sobre o que vou discursar para o meu aluno, mas sobre o que vou dialogar com meu aluno? Qual a qualidade da aprendizagem em aulas remotas, quando não se instala um processo dialógico?

Em se computando as horas trabalhadas, ao mínimo exigido pela legislação vigente, como estão sendo de selecionados os conteúdos considerados realmente essenciais?

Há que se ponderar que tudo isso é um processo emergencial. Contudo, sabe-se que as Aulas Remotas e o uso de ferramentas virtuais como Google Classroom, plataformas, o modelo híbrido – presencial e não presencial – já estava nos planos do governo; a pandemia, apenas, antecipou a implantação que estava prevista para os próximos três anos.
Não se trata de assumir posição contrária aos avanços tecnológicos, nem desconsiderar sua riqueza para a educação, mas fazer uma análise responsável, com visão do presente e futuro, e prejuízos à escola pública, alunos e trabalhadores da educação, que estão sendo tragados por um processo enormemente excludente.
É crucial entendermos que o contexto em que se insere a educação gaúcha, o mau trato à escola pública e a crueldade para com os trabalhadores da educação, não deixam dúvidas de que, se é bom para o governo não pode ser bom para esses trabalhadores. Ainda, não podemos deixar de chamar a atenção sobre a necessária fidedignidade dos professores e das escolas ao informarem os percentuais de alunos que tem se incluído no processo. Quanto mais alto o índice, maior o sucesso desse governo, que tomou de assalto nossa vida profissional e, agora, esta tomando da sociedade gaúcha a escola publica com práticas excludentes, alijando do processo os milhares de jovens e crianças que a própria vida já excluiu das mínimas condições de inclusão social.
Não se pode esperar que um governo elitista, privativista, que prioriza o deus mercado, tenha um olhar humano sobre aqueles que realmente necessitam da escola pública. O que está em jogo é a implantação de um modelo onde o professor é quase obsoleto, onde a escola funcionará com um mínimo de recursos humanos, que irão gradativamente sendo substituídos pela tecnologia.
Paulo freire muito bem elucida essa situação: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.
Aterriza, agora, na escola a Matriz Curricular definida por componente curricular, ano/série, com objetivo de ser norteadora das aprendizagens para esse novo modelo hibrido – o presencial e não presencial – que se instala. Talvez isso seja o atentado mais grave contra a escola pública, pois uma vez mexendo em seu currículo, desconsiderando a proposta pedagógica da escola, fere de morte sua identidade e seu compromisso com a realidade local em que se insere, seu alunado, seus problemas, suas necessidades, seus desejos. Que currículo é esse? Quais conteúdos? Como foram definidos esses conteúdos? Por que esses e não outros? Quem os legitima? Como legitimar conhecimentos construídos historicamente, direito de todos, sem considerar os saberes advindos das realidades locais? Conforme ensina Gimeno Sacristán “é preciso que se estude a vida quotidiana para que os alunos compreendam o presente e o mundo começando pelo que os rodeia”. Como aceitar, então, um pacote a ser derramado na escola, desconsiderando sua realidade, sua construção, sua história? Ora, a educação, qualquer que seja ela, é sempre uma teoria do conhecimento posta em prática? O currículo é sempre território de disputa, está imbricado de nexos entre saber, poder e identidade, constituindo-se espaço de luta sobre o social e o político, indo além do campo epistemológico. Qual teoria está embasando este “pacotaço”?
Como estamos analisando tudo isso? Silentes, indiferentes, calados, subjugados, colaborando para uma realidade que no devir servirá de aporte para a escravização das massas?
“Não basta saber que Eva vê a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. Paulo Freire elucida o sentido para a escola, conteúdo, metodologia, formação e leitura crítica do conhecimento, do mundo e a necessária visão de mundo. Sinceramente, não é possível que acreditemos que essa educação que será implantada contemple nosso sonho de transformação da realidade e da escola alegre, da escola feliz, da cidadania razão da caminhada humana. É, sim, o fim da escola pública como bem comum.
Há muito sabemos que urge a reinvenção da escola pública. Mas transcende a ética aproveitar-se da fragilidade da sociedade, nesse momento triste de pandemia, para implantá-la. Essa nova escola teria, sim, que passar por uma reconstrução curricular, metodológica e avaliação. Mas essa nova escola é preciso nascer do ventre da comunidade escolar, nutrir-se em seu seio, agarrar a alma com paixão pela educação, pelos humanos que são sua razão de ser, e pelo comprometimento com a necessária construção de um mundo onde a esperança não seja um ato de espera, onde a utopia não seja algo impossível de se realizar, mas seja o nosso sonho de um inédito viável.
Sobre essa necessidade, Antônio Nóvoa assim se refere: ”Não são as novas tecnológicas que vão resolver os problemas da educação, quando ela exige mudanças profundas. Não há soluções mágicas. A única maneira é conversarmos uns com os outros”. Isso significa: educadores com educadores, estudantes com estudantes. O que nos aproxima e o que nos separa.” O futuro da escola está em romper com o tradicional, alterar radicalmente a sua estrutura e cultura tão arraigada e tão antiga, fragmentada, com aulas, disciplinas, grades, cadeiras fixas, conhecimentos que não dialogam uns com os outros e com a realidade particular e global. Esse modelo já não dá mais conta, veio do século XIX, tem mais de 150 anos. De lá para cá, quanta coisa mudou, quanta, quanta coisa mudou?
É preciso um novo movimento na escola. Com laboratórios tecnológicos sim, com bibliotecas, menos disciplinas, mais projetos. Isso exige um pacto com a sociedade, que seja parceira da escola, para que a escola saia de seus muros e se integre a uma cidade educativa.
É urgente que defendamos a escola pública como um bem comum e a educação como direito de todos. E, no momento atroz, é preciso que educadores, alunos, pais, entidades, comunidades, pensem muito bem sobre os nós que o momento impõe:
  • Se as aulas remotas não estão atingindo todos os alunos, o que fazer para a inclusão destes?
  • Como serão valorizadas estas atividades nesse tempo e nesse espaço?
  • Qual avaliação e validação que esta sendo pensado sobre essa ação-tempo-aprendizagem? O que pensam os professores disso, os alunos, os pais?
Acredito que todo o trabalho possa e deva ser valorizado, mas é preciso uma maneira para a não exclusão daqueles que não estão respondendo às atividades e que não podem ser ignorados. Mesmo considerando a tipicidade do ano de 2020, não há necessidade de desconsiderar ou não validar como ano letivo. Urge a reestruturação do calendário, que não precisa encerrar com o ano civil. A sensibilidade na validação, a possibilidade da Progressão Parcial nas dificuldades de aprendizagem, para que alunos tenha oportunidade de superar dificuldades no próximo ano, sem ser impedido de avançar na série parece uma justa solução. Também, faz-se necessária uma sensível e criteriosa seleção de conteúdos que sejam realmente essenciais para a série. A avaliação por um parecer descritivo, que respeite as diferentes realidades, e os diferentes ritmos de cada aluno, é imperiosa nesse contexto.
Enfim, continuemos conversando uns com os outros. “Se amo o mundo, se amo as gentes, me é possível o diálogo” e, “Não há saber maior ou saber menor, há saberes diferentes”, mas “Não há, contudo, diálogo, se não há humildade”. Sejamos os construtores da escola da pós-pandemia.
Na certeza de que a vida em plenitude está ao nosso alcance, lutemos e esperemos que o aroma das flores da Primavera possa ressurgir entre colinas e penhascos, e nos identifiquemos como as flores, pois também nascemos para florir.

(*) Guiomar Terra Batú dos Santos. Professora aposentada da Rede Estadual do RS. Ativista do MPP Escola do Povo. Escritora e Representante das/dos Aposentadas/os no Conselho Estadual do CPERS Sindicato. Foi Coordenadora Pedagógica da CRE de São Luiz Gonzaga e da CRE de Santo Ângelo, nos governos Olívio Dutra e Tarso Genro.

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