A autocrítica e a despolitização da classe trabalhadora.

Por  Valdete Moreira (*)

No Brasil acontece hoje a guerra de classes, a guerra entre a burguesia e o proletariado. E em toda guerra só existem dois lados.
A classe operária precisa ter bem claro isso pra não cair nas artimanhas impostas pela burguesia que usa ofuscar essa linha que divide os dois lados da guerra.

Muitas forças independentes e heterogêneas podem adentrar o campo de batalha, mas ainda assim, por mais multíplices que sejam, elas terão inevitavelmente que se aglutinar de um lado ou de outro. Os neutros e indecisos, com sua vacilação e seu abstencionismo, sempre vão reforçar o lado mais forte.

Infelizmente a sociedade brasileira vive hoje uma guerra velada onde os lados não estão suficientemente claros e assim torna-se as coisas bem mais difíceis até para uma análise mais profunda.

Quais são os dois lados em guerra? Quem são os nossos aliados? E, acima de tudo, quem são os nossos inimigos?

Segundo alguns historiadores vivemos hoje uma ” janela histórica” e para aproveitar esse momento de uma forma a garantir um acúmulo e ganho político para a classe operária de esquerda e de forma a organizar os trabalhadores para fazer a luta nós precisamos primeiro compreender e analisar o processo que nos trouxe até aqui, a correlação de forças desigual, o aniquilamento da esquerda no país ao enfrentar o avanço da extrema direita por meio eleitoral e o grau elevado de desorganização da classe trabalhadora que em 2018 nos fez entrar em um contexto duríssimo com a eleição de Jair Bolsonaro.

Precisamos estar dispostos a realizar uma análise profunda do que aconteceu no Brasil nos últimos anos, fundamentada na real e verdadeira correlação de forças entre as classes sociais, mesmo que isso nos afete diretamente para não simplesmente achar mais fácil e mais cômodo ressuscitar apenas nazifascismo para explicar o fenômeno Bolsonaro.

Essa nossa incapacidade de reconhecimento e autocritica se explica pelo simples fato de que, para compreender corretamente a complexidade da atual polarização política, é necessário perceber, antes de tudo, que o bolsonarismo descende diretamente do fracasso histórico da própria esquerda em organizar os trabalhadores e prepará-los para a guerra de classes. Isso pode ser um tanto duro e doído quando nos colocamos como os protagonistas hegemônicos desse processo.

A ascensão do bolsonarismo só foi possível, em última instância, diante de uma classe trabalhadora em frangalhos.

E essa derrota do proletariado brasileiro inicia-se quando o Partido dos Trabalhadores, então uma vanguarda classista e de massas, abdica da sua condição de partido de classe para se tornar o partido da ordem. Deste ponto em diante, o PT não mais se dirigiria somente à classe trabalhadora, mas uma fala, um gesto de aceno simultaneamente, aos trabalhadores e aos capitalistas. Isso, ao proletariado, significou não só a perda real de sua vanguarda de classe, mas, manteve toda a esquerda, mesmo aqueles que por dentro do partido faziam o contraponto, cativa da sua política conciliatória.

Aos trabalhadores do Brasil sucedeu então a mais trágica derrota que lhes poderia ocorrer: a perda da sua consciência de classe. Despolitização em massa.

Também os governos petistas conquistaram com certa facilidade a hegemonia da produção teórica que haveria de orientar a militância de esquerda no campo da juventude , um perigo se considerar a hegemonia desarticulada para a consciência estudantil. Jovens se afastaram da política. Hoje, no isolamento imposto pela pandemia e numa das mais difíceis eleições municipais estamos disputando para eleger uma vereadora ou um vereador nas câmaras municipais de todo o país, um cenário até então inimaginável para o campo petista.

No mecanismo da divida externa reforçou-se as diferentes frações burguesas, aproximando-as em torno do rentismo, e lhes conferindo uma perigosa coesão interna. A dívida externa nosso calcanhar de Aquiles.

Consolidou -se a influência sobre as camadas mais miseráveis e despolitizadas da classe trabalhadora por meio de programas populares e de renda, tiramos da miséria milhões e quando estes lhes faltaram, sem consciência ideológica e a mercê de uma mídia hegemônica aliada ao capital o mesmo povo se voltou contra.

Quando os notórios escândalos de corrupção em que integrantes do partido estiveram envolvidos, quando o governo Dilma estava em franca decadência de popularidade, demonstramos uma absoluta incapacidade de disputar ideologicamente as manifestações espontâneas de 2013, manifestações essas adestrada em grande parte pela mídia e com uma forte tendência de repulsão à influência partidária, sobretudo da esquerda.

Um sentimento de antipetismo foi sendo insuflado diariamente pelos aparelhos ideológicos liberais e conservadores que, com perspicaz uso das técnicas de publicidade e propaganda, souberam vincular e criminalizar o tempo todo o PT, um partido específico da esquerda como o único responsável pelo suposto “socialismo e comunismo implantado “. Criminalizou-se um partido inteiro por conta de uns. O maior exemplo de perseguição é que não teve o mesmo tratamento o Partido PSDB quando sua maior liderança foi vinculada ao tráfico de cocaína.

Ali nasceu o germe do bolsonarismo, da combinação da mídia hegemônica com a burguesia liberal unida em torno de um projeto econômico, da crescente radicalidade do povo brasileiro causada pela crise e a total incompetência do nosso e dos outros partidos de esquerda em ajudar a dar um sentido revolucionário a essa radicalidade.

Esse cenário começou a se fortalecer com a perseguição aos setores da esquerda pela lava jato nas suas principais lideranças, levando-nos a uma crise econômica e política
que destituiu Dilma Rousseff da Presidência da República, através de um golpe disfarçado por um processo de impeachment.

Como saldo desse golpe e de uma esquerda desarticulada, resultou uma classe trabalhadora que não mais se reconhece como classe, que não mais se comporta como classe, e que, por conseguinte, não mais consegue representar a si mesma de maneira autônoma na arena das disputas políticas. Não conseguindo mais representar-se a si mesmos, os trabalhadores não tardariam a sair em busca de quem os representasse.

E buscaram na extrema direita. Buscaram em Bolsonaro que por conseguinte arrastou consigo amplos setores de uma pequena burguesia radicalizada pela crise, sob a liderança política dessa pequena ideológica burguesia reacionária, o bolsonarismo trouxe também a ascensão de toda espécie de vigaristas, escaladores sociais, e refugos das camadas intermediárias da sociedade. Líderes religiosos, chefes de milícia, juízes semianalfabetos, promotores evangélicos, fazendeiros escravagistas, delegados corruptos, comerciantes emergentes, militares nostálgicos da ditadura, monarquistas nostálgicos da monarquia, ideólogos conservadores, parlamentares do baixo-clero, integralistas intempestivos, caciques e coronéis, “pequenos empreendedores”, e todo tipo de oportunistas ou seja essa é a coesão traduzida pela eleição de Bolsonaro.

No meio sindical se firmou lideranças sob uma aristocracia sindical cada vez mais destacada das suas bases, como, nós da educação estamos assistindo por dentro do maior sindicato de educadoras e educadores no RS. Uma contribuição para a impotência e inércia de uma grande camada de trabalhadoras e trabalhadores da Educação assalariados que vivem com os mais baixos salários de todos os outros estados da federação e em situação de vulnerabilidade diante dos ataques sofridos e mesmo assim com enormes dificuldades em levantar para a sociedade e a comunidade escolar a importância de estarmos armados ideológica e organizativamente, para não nos tornar novamente as presas mais fáceis da manipulação midiática da direita liberal, sendo ela feita pela imprensa tradicional, sendo pelas mídias digitais como a exemplo das fake news das últimas eleições.

No sindicato, assim como na esquerda do país não vemos posições de vanguarda na luta contra a despolitização . Pelo contrário, vemos a redução da luta às questões corporativas, atacando as consequências e não as causas destas políticas perversas contra as trabalhadoras e trabalhadores.

E nesse cenário onde por meios eleitorais a extrema direita avançou no país a passos largos, a educação por sua vez foi a escolhida para sofrer os maiores ataques. É no campo das ciências e da educação que se apresenta mais claramente e está explícito o fascismo. Temos um governo anti ciência, um governo anti docência onde se consolida no país e no estado o desprezo pela educação.

O governo de Eduardo Leite aliado a Bolsonaro na agenda econômica, fomenta esse desprezo quando adota políticas neoliberais que precarizam cada vez mais o trabalho docente.
As trabalhadoras e os trabalhadores em educação tem sofrido um constante processo de desvalorização profissional numa sequência de longos 6 anos cuja gravidade a sociedade não consegue mais ignorar.

Educadores estão padecendo e definhando a olhos vistos.Com a grave crise sanitária mundial e a pandemia esse cenário que já era caótico se agravou muito.

Estudos já apontam para um adoecimento específico e em massa da categoria em decorrência do excesso de trabalho e adoção do trabalho remoto o que está exigindo uma sobrecarga desumana dos educadores. Desde o inicio da pandemia, que retirou da escola milhões de crianças e adolescentes e os jogou para dentro dos lares dos professores através do sistema online invadindo a privacidade dos mesmo, o mundo da educação nunca mais foi o mesmo.

Os problemas apresentados revelam a possibilidade de uma verdadeira tragédia para a educação nas diferentes redes de ensino público. A conversão rápida e improvisada às plataformas de educação a distância, implantando o teletrabalho, sistema híbrido e letramento digital, despreparo e falta de estrutura para o desenvolvimento adequado das atividades, dificuldade de acesso às tecnologias,reorganização dos calendários escolares desrespeitando a autonomia das escolas, mordaça e censura em aulas online, falta de liberdade de planejamento, acúmulo de função, revezamento presencial nas escolas para entrega física de materiais, dificuldade de acompanhamento das atividades por parte dos estudantes, aumento da sobrecarga de trabalho dos professores e das atividades escolares dos estudantes, ausência de um planejamento pactuado coletivamente além é claro do descumprimento da lei por parte do governo ao impor baixos salários, atrasos e parcelamentos que culminam com o extremo endividamento da categoria.

O novo cenário revela que, mais do que a volta a uma normalidade, a realidade é de profunda incerteza quanto ao futuro da educação e configura um quadro de exploração exacerbada dos trabalhadores docentes que acumulam matrículas públicas sem sobrar tempo para o convívio social ou para o estudo e aperfeiçoamento do oficio. O trabalhador da educação, vende hoje sua força de trabalho em troca de um salário apenas para sobreviver. Este aprofundamento da condição de proletariado dos trabalhadores em educação nos levará sem sombra de dúvidas do adoecimento à hospitalização.

Esse debate urge, é mais do que necessário. Precisamos garantir a vida da população pobre e trabalhadora e isso é uma questão mais que ideológica é humanitária.

Essa realidade exige a construção de pilares de políticas públicas articuladas. Nas escolas fazendo valer a a gestão democrática, garantindo a participação das comunidades nos espaços digitais, adoção de políticas de formação ampla e continuada visando garantir e não perder aquilo que ao longo de gestões da esquerda nós minimamente asseguramos de inclusão do acesso a educação.

Mas, principalmente, garantindo que as escolas não se tornem hoje mais um instrumento de aprofundamento das desigualdades e de exclusão de uma maioria de crianças e jovens que estão fora da escola e que não por responsabilidade deles diminuíram drasticamente o envolvimento com o ensino mas por conta de não ter acesso às ferramentas digitais. Se nessa janela histórica os trabalhadores não voltarem ao “jogo”, onde a parte mais importantes dessa guerra se dá no âmbito humanitário e solidário, perderemos o rumo da história e adentraremos na mais profunda escuridão do avanço nazifascista da extrema direita afetando a todas e todos.

(*)  Valdete Moreira. Professora das redes públicas municipal e estadual. Secretária de Formaçao Política no CPERs Sindicato. Militante filiada ao Partido dos Trabalhadores desde 1989.

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