O assassinato de George Floyd

Protesto contra o racismo em São Gonçalo, no Rio. Foto: El País. Silvia Izquierdo / AP

Por Adiles da Silva Lima (*)

“… Como a África vai ensinando a gente! Por exemplo, seu estivesse escrevendo para o Brasil, sobretudo     para educadores que estivessem trabalhando com massas populares, em centros urbanos, como São   Paulo, eu teria sugerido que ao abrir o livro, na introdução, o animador propusesse aos participantes do   círculo que fizessem uma leitura silenciosa do texto e que, em seguida, cada um iria fazer a leitura em voz   alta. Mas para a África, não. Inclusive a minha primeira tentação foi essa. Imediatamente o lápis parou no caminho e eu refiz a trajetória. Na África, meu querido Sérgio, a gente está enfrentando uma cultura cuja memória –por ‘n’ razões que não interessa aqui agora conversar- é auditiva, é oral, e não escrita.”  (Paulo Freire. A África ensinando a gente: Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe/Paulo Freire, Sérgio Guimarães.—São Paulo: Paz e Terra, 2003)

Educação, há um rombo aí que atravessa o rufar dos nossos tambores, vamos conversar?

O assassinato de George Floyd, ocorrido em maio, nos EUA, provocou grande repercussão pelo mundo que assistiu com perplexidade, àquelas imagens, bem como, às inúmeras ondas de protestos e as dimensões que esse fato atingiu. Para quem, como nós, conhece, pelo menos um pouco da história das relações raciais desse país e que assistia, à distância, à crueldade daquelas imagens, poderia até entender como mais um fato dentre tantas cenas de abusos da polícia que se assiste por vídeos nas redes sociais. E mais, o modus operandi daquela cena do joelho no pescoço de Floyd, tampouco se configurava como uma exceção, mesmo porque, há bem pouco tempo, um outro homem, também negro, havia sido vítima da mesma forma. Pois então, se a lógica das relações raciais daquele país, assim como a nossa, não é, e nunca foi, exemplo positivo para o mundo, porque esse caso estremeceu tanto aquela sociedade? Lembrando que houve até toque de recolher e forças armadas foram acionadas, tamanho o número de protestos nas ruas. Muito embora, tenhamos conhecimento das dificuldades do governo e das suas relações políticas internas e que, portanto, poderiam ter acelerado o estopim, ainda assim, a história secular de maus tratos às comunidades negras, essa morte poderia ter sido apenas mais uma, como acontece aqui. E por que não foi? E por que nos vieram tantos questionamentos? E o porquê daquele barulhento e intenso clamor nas cerimônias fúnebres?


Para esses questionamentos, temos uma resposta que nos parece justificar aquela imensa comoção, ou seja: a história dos ativismos de celebridades vivas ou mortas, cujas memórias estão vivas no imaginário dos Movimentos Sociais norte americanos. Suas histórias não estão somente nos museus ou nos compêndios. Esses heróis, estão nos livros, nas músicas, nas estampas de vestuários, em filmes campeões de bilheterias. Heróis como Martin Luther King, Rosa Parks, Medgar Evers, Malcolm X, grandes líderes negros dos anos 50 e 60, reuniam multidões em igrejas, ruas e praças estadunidenses, esses deixaram fortes exemplos de que a luta ferrenha de resistência às formas de racismo e seus subprodutos é uma densa caminhada dos Movimentos Negros americanos. Hoje, ela está madura e o povo norte americano, nesse último século, tem dado demonstração de respeito a essa memória. No caso da morte de Floyd, é bem verdade que fotos e filmagens, se tornaram uma ferramenta bastante importante para a expansão de denúncias e para o embasamento de processos na justiça. Mas quem assistiu ao filme “Eu não sou seu Negro”, dirigido pelo haitiano Raoul Peck e indicado ao prêmio Oscar, em 2017; quem fica conhecendo a jornada do nova iorquino James Baldwin, enquanto romancista, ensaísta, contista, crítico social, poeta e dramaturgo, que faleceu em 1987, certamente, terá respostas ainda mais precisas para estas e muitas outras interrogações sobre a trajetória da diáspora negra americana, como também para os violentos protestos que assistimos em junho passado. Baseado em um livro inacabado desse escritor, o documentário, de forma atemporal, nos mostra, inequivocamente, a história dos perversos contornos na construção negativa da imagem do povo negro daquele país e os consequentes conflitos de relações raciais, diante de uma suposta supremacia do imperialismo branco.

Agora, “puxando o assado para os nossos brasis”, não há como negar que a crueldade do regime escravista, nos deixou um rastro de violência, de desprezo e de ódio nas relações raciais, capazes de dividirem em classes hierarquizadas, em gênero, raça e religião, uma sociedade fortemente miscigenada como é a nossa. Aqui a intensidade das dores sofridas, física e psicologicamente não fugiram àquele modelo dos EUA. Gradativamente, a ganância capitalista e exploradora da mão de obra escravizada foi estabelecendo relações de tal ódio, que levaram as vítimas desse sistema a projetar formas de reações, tanto que: homens, e mulheres negras encontraram inúmeras formas de resistência destinadas a confrontar a dominação e a opressão do sistema escravocrata e posteriormente capitalista: o banzo, o assassinato dos senhores de terra, a fuga isolada, o aborto praticado pela mulher escravizada, o suicídio, o sincretismo religioso, as guerrilhas, revoltas e insurreições urbanas —Alfaiates, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Búzios, Farroupilha, Revolta dos Malês, entre outras—, os quilombos, atos de protesto contra as péssimas condições de vida, a violência policial e o racismo. (Caderno de Formação: Jornada Nacional de Formação para o Combate ao Racismo, Escola Nacional de Formação do Partido dos Trabalhadores, São Paulo, 2012).

Destacamos que uma das mais decisivas reações aos trabalhos forçados e à impossibilidade de vislumbrar uma saída para a liberdade, como aquela de lá na Serra Leoa, o sono dormido à toa, saudada por Castro Alves no seu poema “Navio Negreiro”, foram as fugas que resultaram a formação de quilombos. Liderados por Zumbi, o Quilombo dos Palmares, o maior da história da quilombagem, chegou a reunir milhares de “negros fugidos” das fazendas de cana de açúcar, mas também, acolheu indígenas e brancos que se juntaram à população negra. Essa forma de resistência, evoluiu para a reivindicação de terra para as suas sobrevivências. A esse movimento, hoje, chamaríamos de MST. Entretanto, por onde andam essas e outras formas de RESISTÊNCIA à escravidão que tardam tanto a adentrar o livro didático. Se ouvíssemos depoimentos daquelas pessoas, como também de seus descendentes mais próximos da pós escravidão, muita coisa que permanece debaixo do tapete, teria de ser retirada.

A herança da casa grande não nos tem permitido ver, sentir e interagir com um Brasil africano e com uma África brasileira nas instituições da Educação. Porém, de forma bem latente, nos últimos anos, essa conexão está se fazendo sentir de forma periférica. Como mais uma forma de resistência, é nessa geografia em que se encontram milhões de brasileiros, herdeiros, supostamente sem heróis e sem passado, é que valores identitários se levantam. Nesses espaços não se espera o 20 de novembro para dar o devido valor às heranças civilizatórias africanas e, nesse ponto, a religiosidade tem a sua participação na desconstrução numa luta à moda “Casa Grande e Senzala”, porque nos Terreiros a cultura oral é riqueza que se traduz em uma linguagem respeitosa, afetuosa e repleta de símbolos sagrados que se traduzem em valores éticos ancestrais.

Portanto, podemos constatar que há um emaranhado na História do Brasil! Ao arrepio da nossa verdadeira história, que hoje está sendo o centro de pesquisas nas universidades e de historiadores brasileiros, os livros didáticos da nossas escolas continuam a repetir as velhas e desbotadas desconexões de acontecimentos. Nesse ritmo a escola segue o seu compasso numa linha de tempo que não se completa, porque há imensos rombos. E o porquê disso? Por que não há interesse do capital por esse tema das afro-brasilidades, o mercado não tem interesse em resgatar verdades que ele mesma tratou de nos esconder. Nesse sentido o silêncio perdura sendo que ele só não nos surpreende, porque essa limitação grita ao nossos ouvidos e salta aos nossos olhos e aos olhos do mundo.

A consciência negra dos nossos Movimentos está atenta, não há afro-distração. A população negra é herdeira de valores éticos que nos foram transmitidos por linhagens de mulheres valentes que resistiram bravamente ao pós escravidão. A Lei 10639/03 tem essa vertente. Se as práticas escolares persistirem em garantir aquelas histórias de reis e rainhas brancas para nossas crianças, que então, também mostrem os porões da monarquia brasileira. Crianças e adolescentes negras sabem muito sobre a história do branco e sabem nada sobre a sua ancestralidade negra e seus valores sagrados.

Que democracia racial e cultural é essa que não nos garante o lugar da participação de heróis negros nas memórias da política brasileira? As nossas relações internas entre os séculos XIX e XX, não foram nada pacíficas. Havia revoltas que aconteciam de norte a sul, homens negros estavam nessas lutas por serem excelentes guerreiros. Que ideal queremos para as nossas vidas em sociedade se não nos conhecemos mutuamente? Há um conhecimento específico que precisa ser aglutinado aos saberes. Essa é uma demanda reprimida, que vem produzindo exclusão social que só o empoderamento cultural é capaz de romper.  A vida brasileira, não pode ficar assim, com sua história toda retalhada. Onde acontece o vazio entram os estereótipos que satisfazem o gosto acomodado dos “bem resolvidos na vida”. Conexões, além de necessárias à memória nacional, certamente irão formar novas gerações cujas relações de paz dar-se-ão de forma mais espraiada. Sílvio Almeida, Doutor em Filosofia do Direito, Professor Universitário e escritor, em toda a narrativa de seu livro “O que é Racismo Institucional”, da coleção Feminismos Plurais, tem, nesse ponto, despertado instigantes debates no sentido de que, falar da nossa História sem considerar a presença negra na Economia, Política e Saúde, é trabalho perdido.

As modificações dos artigos 26 A e 79 B da Lei de Diretrizes Bases da Educação nacional são uma grande sacada a enfrentar a máquina moedora, arquitetada para negar a proeminência dos povos indígenas e da diáspora africana brasileira. Mesmo que essa proposta não careça da compreensão e internalização da parte de Educadoras/es e Gestoras/es do ensino público e privado, que fique bem entendido: a resistência do povo negro não começou com a promulgação da Lei 10639/03 e suas Diretrizes Curriculares, não estamos caindo de paraquedas na sala de aula, nem nos vitimizando. Esse movimento é bastante antigo e tem o conhecimento de que, sim, a discriminação racial adoece. Entretanto, a patologização das nossas defesas somente provoca uma maior fragilização das relações sociais. Existe uma demanda importante a ser resolvida.

Mas, retomando aquela situação inicial dessa narrativa e pensando no atual cenário brasileiro das relações raciais, um assassinato como daquele senhor, um cidadão negro, pessoa comum, de 46 anos, que sofreu com o joelho de um policial no seu pescoço, por 8 minutos, tivesse acontecido entre nós, quais seriam as reações, além das notícias policiais por um ou dois dias?  Esse silêncio para o nosso povo não é uma novidade, porque reconhece que o sistema está programado. O racismo é um sistema que foi muito bem engendrado tanto lá, como aqui. Porém, fica demonstrada, uma importante diferença sociológica a ser considerada: lá, desde criança, as pessoas aprendem a identificar o preconceito racial, sabem que é uma doença social que não pode afetá-la. E o mais importante: conhecem a história de suas heroínas e heróis. Esse é um detalhe que chama atenção no documentário de James Baldwin, por que não somos educados assim. Essa internalização estimula autoestima de quem se vê representado em momentos importantes da História. Isso faz diferença no momento da solidão de crianças e adolescentes negros no ambiente escolar, por exemplo.

Quem aqui está questionando essas formas de exclusão social, também concorda que, mesmo antes da vida escolar, a criança negra já é alvo dessa ignorância que a escola não consegue visualizar como um problema a ser eliminado de seu ambiente. Para tanto, há de se ver o Brasil como uma potência multicultural e com todas as suas cores bem fortes. Somos múltiplos sendo que, aqui no Rio Grande do Sul, a história se repete, há um mundo negro, cuja história, há séculos, permanece invisível, tamanha a força do poder do branqueamento. E convenhamos, a latente falta de democracia na mídia, tem contribuído para isso. O livro Tramas da Cor, de Rachel de Oliveira, coloca em cheque as consequências dessas subjetividades, quando nos apresenta a personagem Jéssica: Jéssica representa as meninas negras que são constantemente expostas a imagens e expressões pejorativas –consideradas naturais e corriqueiras‒ e que ferem seus sentimentos. A seu modo, a personagem luta sozinha contra a agressividade dos colegas de classe em relação a sua cor. De início, sente vergonha da cultura afro-brasileira e nega tudo que se refere a ela, principalmente os princípios religiosos. Até que um dia, um incidente obriga sua família e a escola a se envolver com sua história e a ajudá-la a enfrentar os problemas. (Tramas da Cor: enfrentando o preconceito no dia a dia escola/Rachel de Oliveira. —São Paulo: Selo Negro, 2005).

Não é raro o encontro com a nossa negritude, acontecer, assim, pela tristeza do isolamento e o desconhecimento das suas razões. Enquanto nossas crianças ficarem a ouvir a história narrada pela ótica do branco e enquanto a História que completa o verdadeiro encontro do Brasil com os brasileiros, ficar assim, fragmentada, há um sistema aí, que, fora da escola, começa a estourar. No que refere à intelectualidade negra, a juventude está levantando denúncias.  A coleção “Feminismos Plurais” é, por exemplo, uma iniciativa de mulheres que nos orgulham. As cotas raciais nas universidade, também, têm empoderado a nossa juventude que está saindo às ruas, transmitindo à sociedade denúncias históricas, que estavam debaixo do tapete.

O racismo é uma chaga que não está contida, como afirmam pessoas desavisadas. Sem educação inclusiva, nem tem como! O apartheid, do jeito brasileiro, tem é se travestido. Pela implementação de leis antirracistas, ele tem se reverberado de formas, aparentemente, não ligadas mais a questões fenotípicas. O racismo estrutural escorre pelas veias da cultura, da religiosidade, da recreação, chegando a questões de gênero, especialmente, dirigidos às mulheres por seus corpos negros. E o que dizer das polícias que matam pessoas dentro de suas próprias casas, no pátio da escola, nas ruas e vielas de comunidades desassistidas das mínimas políticas sociais? Por outro lado, é bom saber que há, nessas espaços, protagonismos que estão reagindo economicamente, há produção que lhes dá poder de compra, gera impostos e não é pouco. Que Democracia que vê esse povo como se fosse um peso social?

As instância públicas do nosso país, inclusive partidos políticos, precisam pegar junto, queremos, também, ocupar os espaços institucionais. Nossas defesas precisam ser repercutidas pela voz de quem conhece e vive a pauta racial. Precisamos nos comunicarmos de todas as formas possíveis. Porém, a escola, por onde todas e todos passam, tem de correr na frente para se aproximar da vida fora de seus muros. Há uma história individual que precisa ser coletiva e, no caso das afrobrasilidades, é preciso considerar que são norteadoras da cultura brasileira. A escola que dialoga com toda a sua diversidade é uma escola viva, inserida no seu tempo e afirmada em seu lugar de fala. No caso da escola pública, seu lugar está, principalmente, na geografia dessas comunidades das periferias.

(*) Adiles da Silva Lima. Professora, Licenciada em Letras e Especialista em Estudos Africanos e Afro-brasileiros, Assessora Pedagógica de Africanidades e Afro-brasilidades – SMED – Cachoeirinha-RS

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