O papel da escola se funde ao papel da sociedade: combater o racismo em todas as suas formas e manifestações. Entrevista a Renísia Cristina Garcia

Foto: Amália Gonçalves/Secom UnB

Entrevista a Profa Dra. Renísia Cristina Garcia Filice (*)

Escola do Povo:  O assassinato de George Floyd no EUA, a morte de Miguel Otávio Santana da Silva de 5 anos no Brasil, do João Pedro de 14 anos ou de cada uma das vidas que são ceifadas em nosso país só reforçam aquilo que temos defendido há muitos anos sobre a necessidade da luta contra o racismo. Nesse sentido qual o papel da escola na luta contra o racismo?

Renísia Cristina Garcia – O papel da escola se funde ao papel da sociedade: combater o racismo em todas as suas formas e manifestações. Temos uma legislação robusta, resultado da organização do Movimento Negro e que gerou, destacadamente, a lei 10.639/2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e obriga o ensino de História da Africa e Cultura Afro brasileira.  Estudar a contribuição negra, a cultura negra negada, é tarefa de todo e toda educadora, como forma de ajudar a evidenciar práticas preconceituosas e discriminatórias que pavimentam o racismo no Brasil. Nem o caso de George Floyd, Miguel, João e milhares de outros são diferentes, o problema é que, no Brasil – por vezes, nega-se o seu racismo. O que torna a situação muito grave. O mito da democracia racial ainda nos assombra de forma avassaladora.

EdP – E como é podemos caminhar na promoção da igualdade racial e na construção de uma cultura antirracista? Por onde começar?

RCG – Enxergando seu próprio racismo, e em sendo branco, assumir que a cor de sua pele lhe abre portas. Que é preciso se juntar aos negros, negras, indígenas e se manifestar contra a toda forma de discriminação, e exigir, o cumprimento das leis. Se somar àqueles que defendem que haja uma educação para as relações raciais. Não cabe mais apenas se dizer sensível, é preciso atuar e se colocar junto com as pessoas que sofrem o racismo, por um Brasil menos hipócrita.

EdP –  Nesse momento estamos atravessando uma pandemia que mata mais de mil pessoas por dia. Os dados que estão sendo divulgados por diferentes pesquisas indicam que teremos um aprofundamento da desigualdade racial, os efeitos da doença na saúde, nas questões sociais e econômicas vão afetar mais as e os estudantes negras/os. O risco é de evasão, de lacunas na aprendizagem, de interrupção nas trajetórias escolares e nesse sentido precisamos pensar nas invisibilidades desse momento. Gostaríamos que você comentasse sobre como a pandemia afeta muito mais a população negra, como atinge as mulheres-mães, as mulheres-estudantes, as mulheres-trabalhadoras em educação?

RCG – Primeiro a pandemia não criou a desigualdade racial, ela encontrou “um prato cheio” na desigualdade racial, que são as vidas mais ceifadas neste momento. Até porque negros/as estão nos bolsões de pobreza, largado a própria sorte, desde a abolição da escravatura, e a política de genocídio negro que se materializa na omissão – anos após ano, dos governos e do Estado brasileiro. Além do mais, antes que queiram remeter ao passado apenas, como sendo o responsável pelo racismo no presente, é preciso evidenciar o descaso com os corpos negros, e porque a política de saúde pública- sempre tão desprestigiada se encontra agora totalmente desgovernada – justamente, pelo fato das vítimas serem em sua maioria, pessoas negra, pobre, indígena, sejam mulheres, sejam jovens. Os tomadores de decisão, em sua maioria homens, brancos e de classe alta, não se sensibilizaram no passado e não se sensibilizam no presente. Houve uma naturalização da (dês)humanidade dos corpos negros/as de tal forma, que não há dor, nem piedade no coração dos nossos governantes, principalmente na atualidade. 100.000 mortes, se apresenta como algo natural, e que nada pode ser feito. Os/as tomadores/as de decisão abrem mão – mais uma vez, da sua responsabilidade para com todo cidadão/ã brasileiro/a. A vida segue – como se nada estivesse acontecendo. Um negro morto a cada 23 minutos, e daí? 100.000, mortos, e daí? Disse alguém…

(*) Profa Dra. Renísia Cristina Garcia Filice – Geppherg – Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas Públicas, História, Educação das Relações Raciais e Gênero – Faculdade de Educação/UnB

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *